terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O perfil técnico de Dilma Rousseff

Semana passada, ainda em meio às inúmeras análises sobre a posse da presidente Dilma, enquanto dirigia, ouvi um questionamento na “Super Rádio Tupi”, do Rio de Janeiro, sobre qual seria o perfil da nova presidente. O radialista, cujo nome não me recordo, argumentava que ainda não tinha visto nenhum comentarista delinear o perfil político de Dilma Rousseff.
Através de comparações rasas com os últimos presidentes, o tal comunicador levantava hipóteses sobre Dilma, baseando-se apenas nas impressões que tinha de cada ex-presidente no momento de sua posse. Desta maneira, Tancredo Neves e José Sarney eram “o conservadorismo no poder”; Collor era “fruto do marketing”; Fernando Henrique, “ a esquerda intelectual” – ressaltando que muitas das práticas de seu governo o afastavam deste perfil – e Lula aparecendo como representante da “esquerda sindical”, logo com perfil “negociador”. Itamar não foi mencionado.

Após essas breves considerações, o radialista, tomando em consideração a participação de Dilma na luta armada durante a Ditadura e os “desentendimentos” gerados pela Comissão da Verdade, questionou seu público: seria Dilma a esquerda revolucionária” no poder”?
 Pouco tempo depois da pergunta ser lançada, acabei chegando ao meu destino e tive de sair do carro, não sendo possível ouvir a conclusão alcançada. Mas o assunto ficou em minha cabeça de tal modo que me senti impulsionado a escrever este post.
Creio ser por demais fragilizada uma interpretação que coloque Dilma apenas como representante da “luta armada”. Este é, certamente, um importante aspecto de sua biografia, lembrado inclusive por ela em seu discurso de posse ao mencionar os companheiros de geração “que tombaram pelo caminho”.  Mas não foi devido sua militância revolucionária que Dilma se consolidou no cenário político e alcançou a presidência. Foi por seu perfil técnico.
E chegando neste ponto atrevo-me a arriscar seu perfil, como sugerido pelo radialista: é o "técnico no poder". Pela primeira vez, não se tem na presidência um político profissional, um político de carreira. Dilma participou do primeiro escalão de diversos governos (municipal, estadual e federal) sendo indicada para secretarias e ministérios não pelos votos obtidos – já que nunca concorrera - mas sua por eficiência diante das pastas assumidas.
Resta saber como se comportará um técnico na chefia do executivo. Talvez lhe faltem artimanhas, manejo político, ou ainda, habilidade de negociação. Mas ver a presidente solicitar que o PMDB indique para o segundo escalão “técnicos” do partido e não seus velhos quadros políticos – muitos até derrotados nas urnas – já é um grande início. 


domingo, 2 de janeiro de 2011

A década da educação

Em sua última coluna publicada pelo Portal Aprendiz no ano de 2010, Gilberto Dimenstein se despede da primeira década do século XXI  afirmando que “já houve diferentes grupos no poder: bacharéis, militares, economistas. A próxima década será a era dos educadores.” Na mesma toada, Dilma Rousseff inicia seu mandato presidencial – o primeiro da nova década – reconhecendo a importância dos professores para o desenvolvimento do pais  –só existirá ensino de qualidade se o professor e a professora forem tratados como as verdadeiras autoridades da educação, com formação continuada, remuneração adequada e sólido compromisso com a educação” - e colocando a educação como uma das prioridades de seu governo.
Os discursos de Dilma e Dimenstein refletem um novo momento para a política nacional. Controlada a inflação e reduzida, de forma substancial, a pobreza, novos desafios emergem e a educação se apresenta como o maior deles. Uma vez que a população adquire renda e passa a consumir de maneira sistemática, seus anseios mudam e, consequentemente, muda-se também o cenário político.  É como já dizia os Titãs há mais de 20 anos: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.”  Parece que agora, de barriga cheia, a população finalmente entendeu e passou a entoar esse refrão, o que exige dos governantes novas práticas. O velho assistencialismo perde espaço e o acesso ao conhecimento se configura como um dos produtos mais requisitados pelo povo. 

Ao colocar a educação como prioridade, Dilma inicia bem seu mandato, e eleva as esperanças do povo em relação ao futuro. Porém para que o compromisso assumido pela presidente não fique apenas em palavras, é preciso que algumas medidas sejam tomadas. Não falo unicamente de investimentos, mas de reformas pontuais e urgentes.
A primeira delas é, certamente, a obrigatoriedade de gestão profissional do ensino. Diretores de unidades escolares serem definidos por apadrinhamentos políticos não é mais condizente com a realidade de nosso país, pois gera arbitrariedade, autoritarismo e feudos eleitorais. O diretor passa a não ter compromisso com a escola, com a educação, e sim com aquele político que o colocou no cargo, fazendo de sua gestão uma contínua campanha eleitoral em favor de seu benfeitor. Nossa democracia, constantemente declarada forte e madura, não pode permitir a continuidade dessas velhas e repugnantes práticas.   
Outra importante medida a ser tomada é, como diz Dimenstein em seu já citado artigo, a aprovação de “uma lei da responsabilidade educacional, que puna, com pesadas multas, todos os níveis de governo que não cumprirem suas obrigações educacionais.”
Parece até meio utópico pensar em uma lei como essa num país onde as escolas são geridas por indicação política e não por competência profissional. Em todo caso, ficam nossa esperança e nosso “olho aberto” no governo que se inicia.